Nos meados de 1670, quando Zumbi, fugindo de Porto Calvo e dos “cuidados” do padre jesuíta Antônio de Mello (a quem tinha sido “dado” aos seis anos), regressou ao Quilombo dos Palmares (onde nasceu quinze anos antes) pulsava em suas veias o desejo sincero de romper com a lógica monocultora, aristocrática e escravagista que, literalmente, com grilhões, chicotes e ferros em brasa, segregava seus iguais, parcela da população que o Brasil, ainda sob o domínio lusitano, negava o direito de existência autônoma.
Se Palmares não foi o melhor exemplo de organização social, em virtude da contestada “severa justiça do quilombo”, segundo a qual aos negros fugidos aplicava-se à pena de execução, e devido ao despotismo de seus líderes (Ganga-zumba e Zumbi), o quilombo, mais que um refúgio, foi a pátria de quase trinta mil negros que tiveram a coragem de, com ação efetiva, ir de encontro aos ditames dos senhores-de-engenho e de uma sociedade que, alçada na moral de seu tempo, excluía de seu amparo e consideração homens, mulheres e crianças “de cor”, negando-lhes a existência e, muito mais, a dignidade.

Hoje, passados trezentos anos, nada mudou. Mais que antes, há senhores e há escravos. A condenação social se voltou para novos seres “indignos” de apreço. Há um novo critério de escravidão, camuflado. Agora, na mesma senzala social, negros, brancos, pardos e índios. Mulheres, velhos e crianças. Aposentados e assalariados. Favelados, suburbanos, sem-terra, sem-teto… Sem-nada e sem-tudo. Todos condenados, não mais pela cor da pele, e sim pela falta de libertadora “consciência-educação”.
Essa escravidão atual é, ouso dizer, muito mais pesada que a de antes. Apesar de fazer suas vítimas fatais, indiretas, nos postos de saúde, nas ruas, no tráfico ou na fome, seu novo alvo não é o corpo, mas a mente… Porque sem que haja corrente, feitor ou chicote, a nova escravidão nos torna inertes e resignados à dominação de deturpações morais que, a todo custo, têm sido banalizadas, como se normais fossem.
Todos os dias, somos conduzidos ao pelourinho e açoitados pelos abusos de poder, pelos assaltos fraudulentos às contas públicas, pela imprestabilidade dos parlamentares, pela inútil partidarização do discurso de problemas que continuam sem solução, pela roubalheira descarada, pela formação de uma casta asquerosa de malversadores dos mandatos populares, pelos crimes de mando, pela falta de vergonha na cara… Se o exemplo de Palmares gerou o que hoje chamamos de “Consciência Negra”, ícone de resistência e contraposição, o que vivemos hoje é, sem dúvida, uma negra consciência.
Só nos resta perguntar donde virá o Zumbi de nossa era – se é que virá – para nos guiar rumo a um novo quilombo. Esse Zumbi, que o reputo metafísico, enfrentará grande resistência, já que a ação dos atuais grilhões tem sido eficaz em limitar o entendimento do povo. Mas, como seu predecessor, trará consigo o anseio de romper com o que está posto, ainda que nos leve a outra escravidão. Não obstante, torço para que logo chegue.
Porque, se não, estaremos fadados a morrer nessa senzala, enquanto, nas casas-grande, hoje chamadas assembléias, câmaras ou palácios, os senhores-de-engenho, em seus ternos Armani e sapatos italianos – comprados com o auxílio paletó – fumam seus charutos cubanos, bebem suas doses de Johnnie Walker Blue Label, acertam seus mesquinhos conchavos e decidem, sem muita dificuldade, qual de nós será o próximo a ir ao tronco.
PS: E então nobres colegas pensadores, analisemos e debatemos o saber do texto em nossa realidade de momento.
Fonte: Texto publicado no portal O Globo

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